Depositada, não lida
A sentença tem data de 1 de outubro de 2025. Não foi lida em voz alta numa sala cheia: num processo cível, foi depositada e notificada aos advogados pela plataforma do tribunal. Uma cópia em papel, impressa para o arquivo, desapareceu antes de lá chegar. Nove pessoas e uma sentença, uma por linha e uma por coluna. Nada te é dado de bandeja: vais precisar de mais do que uma hipótese até chegar ao fim.
Suspeitos
- Amílcar, o técnico informático do tribunal: Garante que a plataforma não falha. Admite que às vezes falha, mas que é ao fim de semana.
- Brígida, a escrivã: Carregou no botão de notificar às 16h02. Diz que foi o botão mais importante do ano e não fez barulho nenhum.
- Celso, o estafeta: Já não tem quase nada para levar: está tudo na plataforma. Leva os papéis que ainda se imprimem por saudade.
- Dorinda, a funcionária do arquivo: Arquiva o papel que ninguém lê. Diz que o arquivo é o único sítio do tribunal sem pressa.
- Ernesto, o jornalista à espera: Esperou a manhã inteira por uma leitura de sentença que não ia acontecer. Soube da notícia pelo telemóvel, no átrio.
- Florbela, a operadora da impressora: Imprimiu a sentença inteira. A impressora encravou na página do apedrejamento verbal.
- Guilherme, o oficial de justiça: Leva as sentenças em papel do gabinete para a secretaria. Esta foi a primeira que os jornais leram antes dele.
- Helena, a senhora do bar: Soube da sentença pela clientela. Às cinco já não havia pastéis de nata.
- Ilídio, o funcionário da escadaria: Limpa os corrimãos de manhã à noite. Diz que nesse dia toda a gente subiu as escadas a correr.