O limite do humor
No primeiro dia ficou dito em tribunal onde é que o humor acaba: no momento em que causa dano. Nos corredores, toda a gente tinha a sua própria definição. O leque passou pela discussão e não saiu dela. Oito pessoas e um leque, uma por linha e uma por coluna. Quase nada te é dito diretamente: vais ter de cruzar tudo.
Suspeitos
- Anacleto, o professor de Filosofia: Veio assistir porque dá uma cadeira sobre os limites do humor. Saiu sem limite nenhum para a cadeira.
- Belarmina, a reformada que vem a todos os julgamentos: Vem ao Palácio da Justiça como quem vai à novela. Este é o melhor desde a semana passada.
- Cristiano, o advogado de outro processo: Estava à espera da sua audiência e meteu-se na conversa do corredor. Deu três pareceres de graça.
- Dália, a jornalista de cultura: Normalmente escreve sobre teatro. Diz que este julgamento tem melhor elenco.
- Estevão, o comediante de stand-up: Veio tomar notas para o próximo espetáculo. Encheu um caderno inteiro.
- Filipa, a estagiária de comunicação: Resume a sessão em tempo real para as redes de um jornal. Tem de caber em duzentos caracteres.
- Gaudêncio, o funcionário da biblioteca: Foi buscar três livros sobre liberdade de expressão para um advogado. O advogado já tinha os três.
- Honorata, a senhora da limpeza: Diz que o limite do humor é o chão da Sala 7 depois de uma sessão destas.